De mim e dos outros | Nati Vicentini

Sim, é verdade… Eu tinha amor pra caralho aqui dentro. Mais de 700 dias guardando e moldando o amor mais bonito que eu fui capaz de sentir nos últimos dois anos. Depois de não conseguir sentir nada por vários meses, eu reaprendi a ser menina que cuida, que protege, que se dedica, que se entrega.

Mas sabe… não era no amor que você estava interessado. Isso eu acredito que você já tinha de sobra muito antes de eu aparecer na sua vida e, mesmo assim, não quis mais. Não era exatamente isso que te faltava.

Você queria a aventura, os gostos diferentes do habitual, os cheiros difusos, as madrugadas bagunçadas, você queria sentir como é ser desejado por tantas em tão pouco tempo e depois de tanto tempo. E sabe de uma coisa? Isso nem eu nem ninguém poderia te dar. A gente só tinha uma admiração por aquele cara que nos fez sentir vontade de ser mulher de um só. Então, na verdade, só perdemos tempo enquanto você criava um mundo seu todo egoísta e se perdia nas próprias fantasias, se enrolava nas mentiras e nas promessas, sem que eu percebesse. Eu fiz minhas malas pra viajar com você. Lembrei de levar uma toalha a mais pra você. Liguei o aquecedor antes de sairmos de casa. Escolhi a mesa do canto da “nossa” pizzaria. Eu pedi uma dose extra de pimenta, e você começou a pedir dois chopps antes do meu acabar. A gente dividiu o sushi de frente pro mar, seguramos firme na mão um do outro antes de entrar em qualquer lugar. A gente teve nossas mini crises de ciúmes antes do mundo desabar, e escolhemos a dedo o melhor bacalhau do mundo no restaurante que você sempre fez questão de pronunciar errado.

Tava ventando pra cacete naquele dia a beira mar e a gente andou abraçados até a entrada do nosso cantinho. A gente prometeu que se tudo desse errado, comeríamos patê com pão e cerveja pelo resto dos dias. Sem vinho branco, sem pratos chiques. Porque o que interessou sempre foi a sua mão na minha. O jeito que eu te fazia rir e a forma que você me olhava como se eu pudesse evaporar a qualquer momento. A gente sabia que tinha um sofá nos esperando. Que o Sílvio Santos ia fazer a gente rir com qualquer programa idiota, então fodam-se o que os dias nos reservavam. A gente reservava um ao outro. A gente protegia o amor do outro dentro do coração de cada um, e não tinha importância se estivesse chovendo quando fôssemos embora. Nossos peitos estavam sempre aquecidos dentro dos nossos abraços.

Então… nem tudo deu errado. Mas algumas coisas saíram diferente do combinado, porque depois de tudo isso, você não foi homem o suficiente pra assumir que é de carne e osso, que é fraco, cheio de desejos carnais, que é normal, banal, que acha legal sair com quem se deslumbra fácil. Que construiu castelos sem nem ao menos ter vencido a primeira das guerras, que saiu cantando pneu nas madrugadas da cidade igual um adolescente meio bobo que fica encantado com a ideia de beber os whiskys do pai escondido.

A sua imagem é absolutamente borrada na minha cabeça de uns dias pra cá… eu jamais, JAMAIS, te reconheceria novamente e te daria aquele voto de confiança que você conquistou com tanta facilidade em uma sexta-feira à tarde. É engraçado olhar pra você nessa vida que destoa tanto de quem você é. A diferença é gritante e talvez demore muito pra você perceber isso sozinho.

Mas é bom te ver tomando as rédeas da própria vida e cagando pro que os outros vão pensar, é bom te ver tão fora da bolha, tão diferente, parecendo tão confiante de si mesmo com uma long neck nas mãos e com a cabeça cheia de paranoias.

Mesmo assim, eu sou filhadaputamente atenta aos detalhes e acabei reparando que o suco que eu comprei ainda estava na geladeira e que as velas que eu botei no seu bolo de aniversário estavam perto da janela, dentro da caneca de maizena que compramos juntos, pra combinar com o paninho de prato. Eu também reparei que a minha escova de dentes rosa ainda está dentro da sua necessaire e que agora você anda por aí com aqueles looks que você antes achava estranho e que só começou a amarrar a camisa xadrez na cintura e a tirar a botinha caramelo do armário porque eu te convenci que era legal; E mesmo que eu te veja por aí com as roupas que eu comprei pensando sempre em qual look meu iria combinar com o seu, eu nunca mais vou te reconhecer de novo nessa vida. Por mais que eu reconheça o seu cheiro de longe, eu acho muito estranho identificar o “cara” que você vem querendo ser depois dos 35… Porque você, pra mim, sempre foi exemplo a ser seguido e agora é confuso te classificar.

Eu confesso que você conseguiu se camuflar bem demais: de mim, da vida, de quem você era, de quem eu amei. Se essa era a sua intenção… eu não sei mais falar de você para os outros, eu não sei mais lembrar de você com aquele coração cheio de carinho e calor e sorriso no rosto.

Eu não sei mais quem você é.

Good job.

Natália Vicentini
Natália Vicentini
De mim e dos outros

Blumenauense, formada em Jornalismo e finalizando curso de Direito; usa as palavras quando transborda e não se cabe mais por dentro. Se não escrever, surta. Tenta ser uma pessoa cada vez melhor - nem sempre consegue -, mas, ainda assim, possui "aquela estranha mania de ter FÉ na VIDA". Compartilha suas ideias malucas e seus amores inacabados na página "De mim e dos Outros".

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